quinta-feira, março 21, 2013

Mais um dia pra lembrar e cantar


Peço mais uma vez licença aos meus poemas para falar de negritude. Hoje, há exatos 53 anos acontecia o massacre de Shaperville, onde num protesto pacífico sul-africanos morreram por protestar contra a lei do passe.
Apesar do peso desse dia e de todos os acontecimentos dessa semana que passou e que nos mostrou as mais incríveis faces do racismo, homofobia e discriminação, trarei no meu texto uma palavra de força, uma canção de alento e uma visão de dias melhores. Não pelo meu otimismo - que aos poucos tem se apagado com tanta coisa horrenda - mas pelo meus irmãos, os de sangue e os da luta. Por eles que ao meu lado blogam, dão entrevistas, fazem rap na escola ou ainda me indicam lindas canções de amor.


Meu texto pretensioso quer dizer quem fomos e somos: Marleys, Luislindas, Malcons, Ivones, Joaquims, Gabrielas, Leandros, Simonals, Angelas e Ellens Olérias que invadem os lares, os ouvidos, os livros e as ruas. Que hoje visibilizados pela internet ou pelos nossos discursos precisam ser os espelhos, os exemplos de luta e vitória (sim, ainda falta muito, mas já conseguimos algumas coisas).
Apesar de cada aperto no coração ao ouvir declarações desnecessárias ou por não ouvir nenhum pedido de desculpa, me inflamo com o espírito dos ancestrais e escrevo. E falo e canto.

"Tudo isso pra quê, né? O Fraga podia ter pedido desculpas. Era só isso, sabe. Admitir que não teve intenção de ofender, mas que, como ofendeu, se sente muito mesmo. Se o pai dele é negro, ele devia saber como essas coisas doem. E quando a gente machuca alguém, mesmo sem querer, a gente pede desculpa, sabe. Imediatamente. Pisei no seu pé? Desculpa. Não foi por querer, mas desculpa. " Jeanne Callegari sobre o caso Ronaldo Fraga na SPFW

É só dizer que errou humanidade, que a gente faz o resto. A gente tá fazendo mesmo sem o pedido, não é? Juntos já avançamos e não descansaremos enquanto as notícias não forem melhores. Não posso deixar passar nada porque me dói e dói meu irmão, não é Leandro?
Nossas intenções são as melhores e hoje em respeito e homenagem ao meu passado que foi assassinado e hostilizado em manifestações na África do Sul, Brixton ou Alabama eu canto uma canção de esperança e solidariedade. Canto para todas as mulheres negras, em homenagem as rappers, as domésticas da minha rua, canto em solidariedade a moça do Distrito Federal e ao guardador de carro da frente do Paço Alfândega.
Ainda falta muito, mas até aqui me trouxe Luther, Mandela, Mãe Menininha, Spikee Lee, Leila Andrade, Tia Ciata, Elisa Lucinda, Sueli Carneiro, Morgan Freeman, Tupac...



terça-feira, março 19, 2013

NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG



A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar 'Humanidade', relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.176/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.176/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando o espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara 'Democrático de Direito'; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês podem ler aqui: http://vestibular.uol.com.br/ultimas-noticias/2013/03/18/trote-com-saudacao-nazista-provoca-acusacoes-de-racismo-na-ufmg.jhtm

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das 'provas' era algo cometer assédio sexual.

http://www.feministacansada.com/post/44492821098

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,gincana-da-poli-incentiva--machismo-e-revolta-estudantes-,1004392,0.htm

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos) , agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/cotidiano/3104-grupo-protesta-contra-trote-machista-e-e-agredido-na-usp-sao-carlos

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada 'Ética'), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito 'Direitos Humanos'.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal 'brincadeira'repulsiva, lembramos:

'Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus'  -
Onde não existe justiça não pode haver direito
Assinam o presente,
·         Feministas do Cariri -  http://www.facebook.com/feministasdocariri]
·         Homem Feminista de Verdade - https://www.facebook.com/pages/Homem-Feminista-de-Verdade/458014067568295
·         SlutShamingDetected - http://euescolhifornicar.com/
·         Renovação Negra - http://renovacaonegra.blogspot.com.br/
·         Liga Humanista Secular do Brasil -  http://ligahumanista.org/
·         Oyá Feminista - https://www.facebook.com/OyaFeminista
·         Ogums Toques – http://ogumstoques.com/
·         Catavento –
·         Luciana Nepomuceno - http://borboletasnosolhos.blogspot.com.br/
·         Denise Arcoverde - http://sindromedeestocolmo.com/
·         Biscate Social Club - http://biscatesocialclub.com.br
·         Niara de Oliveira - http://pimentacomlimao.wordpress.com/
·         Transexualimo da depressão – https://www.facebook.com/transpatologico
·         Vertov Rox - http://we.riseup.net/vertov
·         Rádio Caruncho Fm Livre - http://caruncho.radiolivre.org/
·         Editora Artesanal Monstro dos Mares -  http://monstrodosmares.com.br
·         Cinezine Cineclube - http://cinezine.com.br
·         Centro de estudos humanistas, libertários e anarquistas - http://reinehr.org/cehla/
·         José Ricardo D' Almeida
·         Luluzinhacamp – http://luluzinhcacamp.com
·         Lucia Freitas – http://ladybugbrazil.com/
·         Blogueiras Feministas - http://blogueirasfeministas.com
·         Blogagem Coletiva da Mulher Negra - http://blogagemcoletivadamulhernegra.wordpress.com
·         Blogueiras Negras - http://blogueirasnegras.wordpress.com
·         Ativismo de Sofá - http://ativismodesofa.blogspot.com.br
·         Mulheres Notáveis - http://mulheres-incriveis.blogspot.com.br/
·         Ofensiva contra o machismo - http://contramachismo.wordpress.com/
·         Chopinho Feminino - http://chopinhofeminino.blogspot.com.br/
·         Gilson Moura Henrique Junior - http://natransversaldotempo.wordpress.com/
·         Marcha das Vadias BH - http://slutwalkbh.blogspot.com.br/
·         Machismo chato - http://machismochatodecadadia.tumblr.com/
·         Bidê Brasil - http://bdbrasil.org/
·         Entre Luma e Frida - http://entrelumaefrida.com.br/
·         Escreva Lola Escreva - http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/
·         Cozinha da Matilde - http://www.cozinhadamatilde.com.br/
·         Larissa Santiago - http://mundovao.blogspot.com.br/
·         Questões Plurais - http://questoesplurais.tumblr.com/
·         Gordas e feministas - https://www.facebook.com/gordasefeministas
·         Preta & Gorda - https://www.facebook.com/PretaeGorda
·         Gizelli Souza –  http://twitter.com/gizasousa
·         Cecília Santos – http://www.cozinhadaceci.com.br/
·         Mulheres em Movimento Mudam o Mundo - http://mmm-rs.blogspot.com.br/
·         Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte - http://bhemciclo.org/

quinta-feira, março 07, 2013

confissão

tudo dito na cama
tem um álibi
de não estar ali
de não ser o eu

sem culpa nem prova
ninguém testemunha
é um constante
eu quis dizer

ao pé do ouvido
as palavras somem
num silêncio criminal
ditas ao vento
soam marginal

o que se diz ou
se ouve dizer
ninguém prende:
é confissão
é flagrante
sem precedente

terça-feira, março 05, 2013

analogia torta

é uma broca no coração
portal de músculo
arranhão
espremedor de laranja
triturando tudo
buraco negro
buraco oco

é uma porca na alma
estátua do sentimento
corrosão
furadeira de parede
roliça abrindo dentro
buraco oco
buraco bucha

assim que fica quem vai

segunda-feira, março 04, 2013

segredado

um céu aqui na terra
foi o que trouxeste
não me fiz de rogada
aceitei seus pés, pernas

fizemos um altar, cantado
bem alto com meus apelos
e os implacáveis sussurros
viraram trovões hoje

somos sagrados, sabias
seremos sempre ali
rei e rainha letal
convulsivamente felizes

o eterno louvor registrado
nas tramas da nossa pele
no dormir sossegado
no encaixe perfeito

é nenhum sacrifício
é só volta ao nosso passado.


sexta-feira, fevereiro 01, 2013

apertão

com o tempo a gente aprende
a sofrer baixinho
"canta essa pra mim"
era muito mais legal
quando era pessimista
sem tristeza tola
com certeza do azar
com errata cheia de amor
"ligar ou não"
é nada de bom sem sofrer
a filosofia que colou
é a ancora no meu pé
a espera infinita da senha
tô desistindo:
passa pra cá minha alegria
chega de tanto esconder

terça-feira, janeiro 29, 2013

cais

as linhas de luz repartidas
as lágrimas, jus da saída
o cheiro do abraço
o dengo do amasso
a chave do peito que acerta
e a revolta.
Ah, que volta o mundo!
o amor para e torna
a cor que une é nossa
a dor sentida no amor
de partida, endossa



quinta-feira, novembro 22, 2012

Desculpe Morgan, mas não me calarei


Abro essa exceção no meu blog de poesia, porque me sinto feliz e agradecida em apoiar essa causa.
Foi com o LuluzinhaCamp que eu aprendi a militância e é nessas mulheres que eu me espelho todo dia!
Por isso me juntei à Blogagem Coletiva Mulheres Negras e emprestei minhas palavras pra dar voz as que são das minhas.

#BCMulheresNegras
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O que me inquietou hoje e provocou um monólogo disfarçado de discussão foi o vídeo do Freeman (editado e que trouxe à opinião pública o que lhe mais é conveniente) que basicamente fala que as pessoas precisam parar de falar de racismo pra resolver o problema.
Ok, digamos que eu aceite esse argumento e me cale - mulher negra que sou, acusada de histérica se falo - mas aí fica a pergunta: se você tem um problema, seja ele de qualquer natureza, e esquecer ele se resolve?
Não, senhoras e senhores!
Não foi sentada em casa, ou na pia lavando roupas que as mulheres fizeram revolução. Se eu não me engano, algumas precisaram queimar sutiãs pra fazer valer alguma coisa. Desconheço QUALQUER civilização que fez revolução calado, dormindo, esquecendo seu problema.
Aliás, quando você "esquece" um problema, ele continua lá, camuflado, escondido, disfarçado, mas está lá. E era esse o argumento que faltava para o racismo velado brasileiro: vamos parar de falar que passa!

"Não, mas não precisa parar de falar não, eu só acho que tem que mudar esse discurso"



Que discurso? O discurso de QUEM?


Você já ouviu alguma mulher negra se levantar no ônibus (no melhor estilo Instituto Mannasés) e dizer "Hoje quero relatar a situação de racismo que vivi"? Ou por acaso você já abordou alguma colega de trabalho (de qualquer cargo) e perguntou a opinião dela sobre relações raciais? Sendo menos utópicos: você já teve aulas de história afrobrasileira lecionadas por uma professora negra na sua escola? 
O discurso do racismo não é o discurso do negro, assim como o discurso machista não é o discurso da mulher.
Todo discurso que se construiu até então não partiu do feminismo nem do movimento negro: padrão estético, econômico, sexista não fui eu mulher negra quem ditou, esse discurso não é meu e eu não posso ouvi-lo calada.

E pra aqueles que acham que a gente "se defende demais", os donos dos monólogos e das intermináveis listas de frases prontas, racistas, machistas e esteriotipadas, eu sinto muito, mas enquanto vocês atacarem a gente vai se defender. Enquanto eu puder construir meu discurso, eu não vou me calar.
Me perdoem os editores, a opinião pública, meu chefe e Morgan Freeman, mas enquanto 75% da população pobre brasileira for preta, enquanto 90% das empregadas domésticas morarem no subúrbio, enquanto minhas amigas negras ganharem menos que as colegas brancas (e menos ainda que os homens) e enquanto à noite, taxistas não pararem pra mim, eu vou continuar falando de racismo.

Uma homenagem singela ao meu querido chefe.

segunda-feira, novembro 19, 2012

torpor

as calças erram suas
passos largos que me
guiam ao infinito, Bahia
o meu desejo seu inferno
te condeno às duas
teu inferno somos nós
até te dizer te amo morrerei
até te beijar pra sempre somos duas
até ser sua somos mais.




segunda-feira, outubro 15, 2012

quem sou eu

apertou hoje
vi as ruas quentes
vi o mar fresco
vi os pretos

doeu bem
o céu só seu
a areia que é fina
é também minha

chorei sem
aquele sol
nossas pessoas
minha casa

sorrisos
lendas, luas, coisas
sons, esquinas, todas
minha terra boa


segunda-feira, outubro 08, 2012

me olha seu olhar
seu olhar revolta
o meu lacrimeja
sua imagem borra

seu olhar me ama
a mim me apavora
coisa de corsa
me entra, me devora

de cima, os poros
linhas de água molham
olho seu ollho pra mim
a miragem que melhora

me-lho-ra eu

terça-feira, outubro 02, 2012

carrancuda

aros de óculos vermelho
lábio lindo e lânguido
que fino traço!
cabelos preto betume
unhas brilham vaga-lume

só que a perfeição tem erro
eis dela o nome perfeito:
carrancuda
sem sorriso, sem esboço
sem festejo, sem adorno

ela nem me olha, pois
caso fosse, lhe olharia
e de volta sorrisos com
    bocas, alegrias
  lhe faria uma cura

nunca mais ela subiria
    no ônibus triste
nem apagada ou carrancuda
irradiada e formosa seria
mulher da boca brilhosa
batom claro cor do dia

domingo, setembro 16, 2012

tem, mas acabou

por você
tenho muito
bem querer
tenho cafés
tenho amor
tem, mas acabou

pra você
umas cartas
umas chuvas
duas chagas

bem quis
toques, letras
por um tris
desfoquei

quis dizer
mas terminou
a porção
do amor
do apreço
dissolveu


quinta-feira, setembro 13, 2012

Do Antigo à Zona Norte

quanto custam três poesias num engarrafamento bizonho?
cinquenta centavos, suponho
horas desperdiçadas ou ganhas, não importa
é música de gente morta,
buzina
incômodo e cinco metros de rima
nem a moto anda
sinal vermelho, poucas esquinas
fome
aff maria!
mais de uma hora pra sair da Rua da Guia
desisto
quero mergulhar nesse sms
texto numérico de longa, calma e cara poesia.


quarta-feira, setembro 12, 2012

solstício

pés de pitanga e chão
pés de amêndoa e chão
pés de flor bunita e chão
é nem verão ainda
mas tá quente que só o cão
piso com cuidado
no tapete que me liberaram
canto dentro de mim
canção colorida
sinfonia de estação, de jardim.

terça-feira, setembro 11, 2012

retina

É segunda pela sétima
sétima não, setenta vezes sete vez
meu olho sonambulo viaja
num Morro da Conceição
com preguiça
procura alcançar o infinito
e segunda ninguém descansa
depois do sete de setembro
transeuntes são crianças
e correm nos meus olhos
vagos
desertos
cegos de segunda

um chêro, xau

Meu coração tem medo
de dar a mão a palmatória.
Vais fazer falta, eufemismo
de já tô com saudade.


sábado, setembro 08, 2012

já fomos melhores
minha língua ácida tropeça
queda perfeita!
olfato que caça sexo
eu não presto
o amor que não chega
é a prova dos nove
dez pras três
me traio te buscando
palavra chave da minha boca
infarto que me abre as pernas
nunca te deixo
te dou control alt delet

terça-feira, setembro 04, 2012

invade o escuro
na minha alma
erro sempre você
me engano te buscando
arrodiando os dias
chorando em parcelas

solos de pratos quebrados
no palco coração
a dor mira e acerta
já não se sabe ser
engano, se já não é

amanhã de manhã
toda torcida é
te ver e me sabotar
encontrar a resposta
na janela do navegador
sem te errar, meu alvo

quinta-feira, agosto 30, 2012

da psicose

medo da resposta e do acaso
medo move meio mundo
a mim paralisa
implica em porre
porradas no estômago
medo congela pés
petrifica o osso
esfria o suor
fecha o quarto
o email e peito
quem sabe
não haja antídoto
causa do medo:
efeito

receita e tal

como um bolo mágico
alquimia de cozinha e pia
minha angústia vira poesia
é uma palpitação no peito
que, eu não sei vocês, mas
em mim não há nada que
dê jeito
pílulas, cafés, caminhadas ou affairs:
tudo se sufoca, pedindo letras
rimas ricas ou pobres
meu coração choroso só sossega
quando vê seu sofrimento em
tradução, melando as linhas
machucando minha expressão
é que é danado de bom
ir esvaziando a vasilha
enchendo a forma do bolo
doce que é a vida

domingo, agosto 12, 2012

Agonia de amor

eu não devia
mas achei você
tudo pela agonia
que de dia ou de noite
assombra e aperta meu
peito e mente

eta aperto enjoado
pra acabar logo com
tudo, queria hoje
você ao meu lado

mudando minha faixa
trocando meus discos
nosso ritmo encaixa
deixando nossa música

na agonia de todo dia
rolar.

Poesia para o amor intenso

mirei e fui
nem confiei
dancei, dancei
dançamos

a noite foi salva
a cidade quem viu
o caminho era um filme
chegamos

como não vi a noite passar?
o quanto senti o coração acelerar?
desde quando ter não é ficar?

fomos nossos
eram tantos
incontáveis

guardei, mais que isso
prendi
prendi o amor no instante

agora danou-se
foi culpa da dança
a falta foi nossa

se eu não te encontrasse
não saberia dizer nunca
que de amor se sente

quando a mão procurando
segura
essa noite.

sábado, julho 21, 2012

frieza

o balé do vento
brisa de moção
solidão
o sentido respira
dança, baila, suspira
ar do leste
cheiro de sertão
de gente boa
mato que balança
perfume da minha
janela
vento que me alcança
cama que flutua
se enche de gás
e some sem amor

terça-feira, julho 10, 2012

justa causa

não me lembro como é
fazer poesia, escrever
viver, me por em pé

deletaram de mim a rima
a linha reta e fina
do caderno, do papel
do moleco

falta de costume
perda de mania
abandono de serviço
demissão do ofício

me devolva meu direito
mente minha
me traga a palavra
imigrante
me faça empregada
palavra retirante

domingo, julho 08, 2012

base

um sopro de sossego
o coração relaxa, descansa
a brisa da cidade fica mais
leve, saborosa, cinza

já tem onde os pés pousar
o solo de um corpo estranho
aterrizar, chegar num lugar

ver rostos que são seus
comemorar por isso
enfim, saber o que tem

sossegar

terça-feira, junho 12, 2012

defeito de fábrica

inaugurei o amor
cortei seu laço vermelho
sorri pra todo mundo que
batia palmas e me sorria

no fingimento eterno de novidade
abri a caixa como se fosse surpresa
fiquei feliz com aquele pouquinho
que me deram

nunca esperei que fosse mais
afinal o presente é a expectativa
da mente e a minha sabe o que faz

como pede o figurino, fiquei feliz
brinquei com ele, andei na praça
tomei sorvete e até carinho fiz

mas a novidade do brinquedo acaba
a cor da caixa, do laço, da vida
fica feia, suja, desbotada
não era mais amor que ali estava

resolvi então comprar mais um
me animar e fazer desse novo
mais um brilhante, bonito, vistoso
amor de direto de fábrica

pra ver se dessa vez ele me cabe
e fica comigo por mais tempo, quem sabe...

grafite

olhos verdes de desenho
fixos e indecifráveis no papel
linhas tortas de cabelo enrolado
misturando sorriso louco e dengo

me transfere pra sua mão
realinha minha cintura do
jeito que parece ser perfeito
traduz os códigos do corpo

refaz o instante depois
rasga o papel dos tratos
das regras e da verdade
só registra o que for bom

mas mantém a loucura
deixa escrito aí no desenho
inacabado como eu
rabisca bem fraquinho:
eu te quero



segunda-feira, junho 04, 2012

imperfeição

como se sentir-se bem
fosse dar-se inteiro
com intensidade e sem limites
só há uma pessoa que conhece
"eu nunca vou amar ninguém de novo"
porque nunca há pensamentos
nesses momentos de insanidade mental
chamam de Transtorno da Ansiedade Animal
instantes inadmissíveis de felicidade frenética
dores e prazeres abusivamente positivos
como sentir-se bem
fosse dar-se pela metade
com o coração sempre dela
"eu só vou amar você"
porque os pensamentos são só dela
monopólio de atividades cerebrais 
chama de Amor Mal Resolvido
é tanta doideira que nem sei.

mais bela das belas

a sensação era de limpeza
de alma, de amor, de mar
uma calma grande que 
de tão grande me assanhava
o coração
fomos nós juntas por estradas
nuvens, paisagens, chuvas
ela bem dentro de mim
rítmica, pulsante, colorida
me dando força, saudade, coragem
difamaram seu nome
mal tratos, malefícios e tensão
não é você quem eu reconheço
minha casa, meu tudo, meu chão
guardo em mim aqueles dias
em que só amor era o que eu via
coisas boas, romances
nunca vi em ti escuridão

sexta-feira, maio 25, 2012

poema molhado

o cinza cobre o céu, é chuva
os garis com capa e luva
a gripe cobre os pulmões
e nas cabeças das crianças, gorrinhos
as poças se transbordam em pinguinhos
sapato molha e é uma zorra só
alguém reza pra que ninguém morra?
bota um blues, abaixa a luz e busca o outro
pra terminar bem quentinho


segunda-feira, abril 02, 2012

mãos de filme

a lembrança da pele nunca me falha
faltam palavras que me decifrem
como aquela boca que desceu
como aqueles pés devoradores
o filme dos meus folículos está passando
vejam quão lindo: músculos, desenhos e
curvas de cinturas
firmes mãos que passam, rolando
seios, beijos, desejos
é a exibição da memória da carne
ao vivo e aos berros
pra que a sessão não acabe
apaguemos as luzes e permaneça
a loucura rodopiante da sala

terça-feira, março 27, 2012

tortura

quantos erros cabem num segundo
ah deus, os desgraçados são como eu
e é por isso que tenho pena das pessoas
da velhinha no ponto, do maluco sujo,
do menino cheira cola
são todos eu-problema e desses eu
tenho muita muita pena
apesar de saber que há maldade
há violência e descrença
há amores desilusões valem a pena
e cabem no bolso, sorte da miséria
números de mega-sena
só o que cabe nos erros são segundos
deus eterno e todo poderoso vagabundo

domingo, março 25, 2012

sidarta

gemidos e sabores
são seus desejos embaixo
da minha pele
ah, se fosse pra sempre
os rios dessa cidade
teriam seu nome
seriam testemunhas
da tentação quente da gente
delicioso menino batuque
me acelera o corpo todo
vem todo dia
vem selando a vida
vem só fotografia
aquece e mostra o que
só você podia
me faz querer ser sua
tatuagem, mulher e orgia
fica mais dentro de mim
fica e entra porque
já é claro demais o dia


semanal

domingo todo mundo tem angústia
é dia de chorar baixinho
vendo TV de noite
ou vomitar na cara da desilusão
melhor dia para suicídio
quando termina a alegria e
começa o medo de começar

se todo dia fosse domingo
a maldade teria asas e
pousaria sobre nossa s cabeças
latejantes da ressaca
mas domingo é só hoje
no expediente, toda dor morre

sexta-feira, março 02, 2012

escapou

fugindo de você
traço passos em mim
lanço no porto mais longe
as moedas do poço sem desejo

corro sem você
desesperadamente feliz
esqueço que tinha boas bolhas
bobas alegrias no estômago

vejo esboço de flores
na velocidade da luz negra
que fode meus olhos com
tanta rapidez de iguais cores

entregues em lenços
seus pequenos lamentos
me afastaram correndo
não procuro voltar

sair é meu sossego

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

a amante

amor decadente
paixão errante
dele e da cidade
castigada
irritante
preferia nada
a ter um monte
sentar à estrada
dormir mirando
horizonte
nos braços
quentes e ríspidos
relaxar seus
sonhos, futuros
distantes
oh cidade
na cama teu espaço
é o de amante

terça-feira, janeiro 17, 2012

despertador

quando ela pega
pode ser noite, dia
com dor nas costas
quentes querendo
água fria
fechando os olhos
caindo como criança
em truques de magia
confunde, ludibria
te faz perder o sono
ao mesmo tempo que
te canta notas tardias
não se negue: ela bate
na ponta do lápis e grita
"abre, é poesia"

domingo, dezembro 11, 2011

overdose

lá em casa é um lugar
com cheiro de sorriso
e textura de pessoa
dendê e atenção nas histórias
respeito aos mais velhos
guitarra baiana, molequeira
balanço sincero com ritmo
de coração acelerado
lágrima de nostalgia da mortalha
nota na voz malemolente e quente
lá em casa é gente
reconhecida pela voz
pela paixão e zelo
estado grande de solidão
mas a gente se encontra
e pra cada santo faz apelo
que não nos tire nunca ardência
nem pimenta nem malemolência

terça-feira, dezembro 06, 2011

jogatina

desde 1993
te quero
tínhamos 15
hoje 33
no nosso jogo
nosso preço
peças de xadrez
te ganhei
amei
até dias mais tardes
ter seu não 
vencendo, sendo
meu disparate
cheque mate
perdemos aos 23
de qualquer outro tempo

segunda-feira, dezembro 05, 2011

tríade

eu amo vocês
uma declaração
a nós três
registrada na
cartografia do
meu coração
para a comunhão
total do nosso
bem, que
assim sejam
meus os
sentimentos
que tens
eu, tus, vocês
divididos e
unidos num
só coração
nós, os três

quinta-feira, dezembro 01, 2011

venci?

de tanto pensar ganhei
ganhei uma dor de cabeça nos olhos
um monte de fumaça saindo
pálpebras embaçadas e inquietude
eu prefiro vidas complicadas
coisa de espiritismo regredindo
dentro é tanta confusão
que nem a profusão de pessoas
incomoda tanto: elas não me veem
eu não as vejo e tá tudo combinado
só não tá certo o primeiro parágrafo
nunca ganhei nada, nunca arrisquei nada
levei boas palmadas da vida
calos, dores e feridas foi tudo o que arranjei
confesso: o problema é todo eu

domingo, novembro 20, 2011

finado

é feriado aqui perto
sem sofrer e sem sofá
a vida passa feito
relógio cuco des-pertador
dentro daqui é furado
a água sai pelo buraco
dormir uma esperança
que o pescoço descanse, decreto!
supermercado de emoções
abra amanhã porque é feriado
precisaremos decerto
de feijões e corações

domingo, novembro 13, 2011

ruído

igual ao ano passado
quando o coração fervia
a sua espera
tudo o que sentia
tirava o fôlego
igual a cantar Etta James
subir a ladeira
te querer
no final desse ano
vai ser final da solidão
ou da espera
ou seu fim
do disco que acaba
com ruído de risco
igual seu nome
na minha poesia

quinta-feira, novembro 03, 2011

podreira

calo enquanto meus calos
falam uma dor aguda
sangue saído da verruga
são os meus podres

falo pra tirar minha culpa
esfoliando com água a pele falida
limpando a crosta esfregando
espalhando folículo de nojura

no ralo peles, lodos,calos
a superfície estranha a mim
é parte da poeira suja
de boca podre, de carne dura

segunda-feira, outubro 31, 2011

tradução

observar
outros se rasgarem
seu deus dormir
boca no beijo
assistir o ônibus
passear
mão subir
fila andar
fumaça e nariz
acompanhar
dedos de ogan
pés a marcar
alisar
flores que se
oferecem
ofício de sofredor
de parar o tempo
sagrado
numa folha


sexta-feira, outubro 28, 2011

non stop

caminhos para o mundo
são curtinhos
audaciosos e atrevidos
tem bastante solidão
alucinações neles
soltos na buraqueira
da vida formosa
mostrando o sol de Olinda e
os relógios atrasados do Fórum
a certidão de chegar
o asfalto da felicidade
tá feito!
rindo feito besta
na cidade sem eira
Beira-Rio
Ribeira
apaga a solidão e 
escreve novamente na areia
IMENSIDÃO

quarta-feira, outubro 26, 2011

profecia

enquanto aqui o mundo gira
me pergunto o que ele faz
parado procurando o tempo
com fotografias e aviões fúteis
tão mais interessante as músicas
que canto de noite na sala vazia
dele bem mais que as
notícias da TV muda e dos sites
colombianos ridículos
vem tomar café aqui em casa!
tem umas revistas rasgadas e
um tapete pro nosso futuro
cachorro
tem mel e queijo
no meio da noite, um beijo
seu mundo vai acabar
corre, vem pro meu
os blogueiros não mentem
aqui no quarto tem incenso
e a gente pode andar de metrô
em Recife nos fins de semana
ao menos que seja melhor
ter um sofá de couro e comer
duas horas antes do mundo
as ambulâncias ainda gritam
meu peito te chama baixinho
desliga o som e deixa música
sem o final do te amo

sexta-feira, outubro 14, 2011

do muito em mim

ela me chama todo dia
como chegava na janela
dizendo que era hora de
parar a brincadeira
chorosa, eu quero ficar
mais um pouco, só pra
terminar o baleô, o onoum

as mãos no queixo cansado
a voz tão linda diferente da minha
que me chama agora com mais
apelo, carinho, zelo: Sobe menina! Já chega, volta logo dessa brincadeira.

ela nem sabe porque todo dia me
aperta o peito e dá vontade de
chorar embaixo do chuveiro
de levá-la comigo pra proteger
ela sabe tudo só não sabe que
muito do que a gente queria era
guardá-la numa caixinha de
enfeitar noites e tornar tudo
calmo, forte, rosa e mãe

quinta-feira, outubro 13, 2011

a doçura da felicidade

cócegas na boca
são brigadeiros
encontrando a saliva
fazendo rir o corpo
inteiro
atingem o cérebro
como morteiro
o efeito na barriga
é feito no prazer
no sorriso com dente
preto
cheio de graça e doce
ave maria como é bom!
alegria nas paredes
brigadeiros no sorriso

segunda-feira, outubro 10, 2011

um poema em cada árvore




Um poema em cada árvore (13ª edição) é um projeto do Instituto Psia que reúne poetas de diversos estados no Brasil nas árvores de Governador Valadares (MG). Para saber mais, veja.

terça-feira, outubro 04, 2011

mais do mesmo

muito revolucionário exatamente quando
o pensamento vem no transporte público
quando a vontade de mudar tudo transborda
produzindo um monte de tópicos para
"o que fazer amanhã de manhã"

ousado demais o comportamento de olhar
por entre as frestas dos braços brancos
mirando as pernas grossas de alguém
que usa óculos e segura um guarda-chuva
desviar os sinais do corpo é mais seguro

surpreendente encontrar um confeito
no bolso de trás da calça jeans lavado
adoçando o longo caminho de casa
faz em vinte minutos quando não tem
trânsito na avenida principal da escola

adoçando, surpreendendo, revolucionando
as noites repetidas com banhos quentes
pés descalços, chocolates e músicas de tv

quinta-feira, setembro 29, 2011

poesia após a morte

quem sempre te salvou foi a poesia
nas horas mais doces ou em que a
dor no mais profundo vinha e doía
era lá que as palavras ganhavam
função de aliviar fortes sinapses
acalantar a ferida como merthiolate
ardendo no início, sarando no fim

te pegando pela mão e te levando
a passeio na praia de jacumã igual
quando você cantava pra esquecer
fazia alto tão alto que alegrava a si
ela borra seu batom com lágrima
regenera a pele crequenta de sofrer
foi e será a poesia sua redenção:
senta então pensa e termina a oração

segunda-feira, setembro 26, 2011

imagem do dia

ela quer ver aquelas ladeiras
com paredes de grafite bonito
e as ondas do mar balançando
como os cabelos dele por sobre
seu peito nu e rígido de amores
ela quer ter o cheiro de acará
dançar, pular até doer a panturrilha
chamar de seu o homem das finas
linhas e mãos pequenas roliças
sentir o sol que sorri em cada
guri da esquina da Pituba à Barra
andar nos museus sem deixar de ver
os pretos que miram o tempo parar
sentir seu chão, seu céu, seu pão
se achar com tudo seu que ficou

segunda-feira, setembro 19, 2011

sonhos de uma noite de amanhã

tinha sede nos músculos
ardência nas peles duras
antes de você era um
pequeno e gostoso suspiro
nas noites em Minas Gerais
tinha umas loucuras matinais
pular muro, voar e dar
aí depois veio você
e deu uma vontade de receber
de ter e ficar só isso por um tempo
nunca mais você foi de mim
aqui toda noite fico eu sem
naqueles longos beijos nem

sábado, setembro 17, 2011

morena de yemanjá

falar mansinho na diplomacia
rezar baixinho e dar um abraço
com um tapinha nas costas
sorrir demorado e sempre dizer obrigado
tomar café e chupar picolé de Seu Luís
furar onda e amar o mar com suas algas
verdes e vivas iguais as contas de mamãe Zeca
aprendi com ela: mansa, elegante, singela
D. Francisca, a mulher primeira dentre as 7
a morena mais chic, sincera, humilde e bela
das margens azuis e salgadas do Rio Vermelho

quinta-feira, setembro 15, 2011

sede de mudança

nada de importante
é só poesia pra mudar
fazer algo diferente
de noite lá em casa

não há nada de revolução
letras agarradas na tecla
transpostas da cabeça aos pés
é o que me chama, é o que são

nada novo a gente pediu
só imaginou que podia ser
a voz do lado confirmou
você nunca fez nada, viu

nem relevante você é
nunca leu Dostoiévsk 
nem nenhum Romeu foi seu
chame isso do que quiser

é tudo menos o que querem ser de grande e infinita poesia


com açúcar e união

vamo juntar tudo
sua mão na minha
o refrão e a primeira linha
nossa solidão
vamo arrochar o guarda-roupa
afastar do copo minha escova
juntar nosso sofrido amor
traz um pouquinho de quentura
do desejo por mim bastante usura
e não me leve a mal
só quero que me pegue
e juntos pelo fim da distância
façamos a tal atração fatal

quarta-feira, setembro 14, 2011

last night you were there

espero a água do ralo descer
e com muita paciência
listo na geladeira
tudo que tenho pra fazer
deixo a profusão dos versos
atropelarem as louças na pia
e corro pro papel secar minha
mão com sabão e escrever de noite
atrapalho tudo dentro de mim
e ajo como se não houvesse eu
amanhã de manhã no expediente

os fantasmas do meu quarto esperam
enquanto eu ouço mais uma música
e penso que aquele menino me quer
alguém me disse que ficava sincera
quando escrevia ou bebia ou ria
já se foi toda a água e voltamos
juntos ao ralo de partida
cumpri a lista e amanhã meio dia
te direi o quanto te amo assim
meio como quando não queria


diálogo de um

se eu chamar
você vem, será
na manha
na minha
sem demorar
quero bombons
e bons beijos
demorados em mim
chegue aqui comigo
veja, sem pudor
as silhuetas e curvas
que a gente junto faz
me diz que vem e vai
chega no ouvido e me confunde
deixa que eu gosto, me iludo
como chamar pra comer é dúbio





terça-feira, setembro 13, 2011

termina

as dores do dia
um mundo de dedos
dos pés que calejo
ralando nas pedras
divago andando
que diabos fazem as pessoas?
devoram dados
descontam dívidas
escondem medos
decoram vasos
não andam como eu
não pedem, mandam
e os dias recorrem
terminam cansados
doridos e magoados
no quarto que é meu

terça-feira, agosto 30, 2011

ouro besouro

o que vale a pena?
corridas na praia
dias de sorvete
beijos na boca
feijão aos domingos
risada dos meninos
baba no campo
aulas de tango
bolo de chocolate
banho de mar
vale ouro de mina
um pote de sonho
acorda, menina!


quinta-feira, agosto 25, 2011

boas tardes

queria era
umas tardes
vazias
pra ver tv
comer pipoca doce
ouvir novela na cozinha
sozinha
com meus
questionamentos ao espelho
falando às paredes
varrendo a casa
cortando as flores
retocando o canto
da casa de vermelho
tardes com melodias
de mãe que leva no médico
e depois te compra um doce
pra distrair
vazias de sons
cheias de amor
com ventinho frio
e café quentinho
era de uma tarde dessa
que minhas costas e coração
precisam


segunda-feira, agosto 15, 2011

desengarrafei

parei de me ofender
me agredi
e deixei o acaso
tomar conta
botar no colo
pra dormir
fui largando as frescuras
sentindo o gosto
da manga purinha
cantando uns sembas
tangos, ladainhas
me deixando de mão
ao sabor cítrico do vento
vendo homens no bar
argumentos
só deixando
soltando sentimentos
chupando mentos
e refrescando
o bom da vida
chegadas, muitas
e mais ainda: partidas

quarta-feira, agosto 10, 2011

criatura minha

deixe de maresia
e vem
vem ser minha
criaturinha
me abraça e jura
que nenhuma dor
ou agrura
vai tirar minha
mão da tua
esquece o medo
e hoje, a lua
repare a noite
foto da vida
surpresa metida
só minha e tua

quarta-feira, julho 27, 2011

memória cheia

detesto esquecer
ave maria!
como é ruim procurar
e se perder
chamar por alguém
aquele nome de certeza
e a pessoa não responder
procurar o lugar
e não encontrar
sendo que
"já estive lá..."
antes
durantes
memória ruim
me invejam os elefantes
bonito é
quando estás sentado
esperando
no meio tempo
pensando
posso estar no lugar errado
com a bunda fincada
em perfeito quadrado
enquanto
se pega pensando
"porque diabos
não trouxe anotado
se tivesse lembrado"
lembraria do lugar
oras!
e não resmungaria
ou fantasiaria apavorado
o maior vexame do mundo
parado, tentando se desculpar
frustrado querendo esquecer
o que deu errado

quinta-feira, julho 21, 2011

enrola a ação

muito lero
pouca lira
muito cheiro
pra pouca comida
fala fala fala
e diz nada
pra que dizer
se o importante
que é fazer
não se concretiza?
dá nos nervos
martiriza
aborrece
irrita
fecha a boca, porra!
e mãos à obra
agiliza

domingo, julho 17, 2011

memórias saborosas de um olfato

flores roxas
alfazemas doces
são os ventos
que carregam
o fino traço
ao olfato
essências puras
amoras cítricas
maduras
vem penetrando
em mim e
sem pedir ou insistir
já está dentro
suavemente trazendo
cheiro de memória
sabor de tempo

quinta-feira, julho 14, 2011

toc toc

é a poesia!
que traz tudo
o que não queria
uma saudade doída
aquele beijo de partida
traz os lençóis
chuva
chocolate
bebida
casaco
caracóis
a voz incessante
que grita
pedindo escrita
atenção, apelo
nesse jogo
de amores
perdidos, despidos
à minha beira
com os mesmos
queira ou não queira
me toma nos braços
enfeitiça num balanço
e apesar do contraponto
me deixo conduzir
por tanto

quinta-feira, julho 07, 2011

presente do momento

se é pra dá
poesia eu vou
devagar e leve
levo vestidos
arrancados
petiscos
pra escrever depois
vamos nos
marcar o instante
último momento
quente latente
chama que é bom
e dá nisso
colo cama e poesia

segunda-feira, julho 04, 2011

.

oxente pulei as folhas!
esqueci delas, mas
vem na mente
um palavriado bom
chique e retado
só pra preencher
o espaço
formar versos
ligar os laços
pisando nas folhas
borrando as bolhas
mesmo sem rimar
e vamos aprumar!
perna
tapete
traveco
escrevendo a esmo
que nem analfabeto
procurando o
que não há
de se encontrar
agora é terminar
pois o papel está completo

quinta-feira, junho 30, 2011

curtinha

poesia que eu queria
ter feito
são como tiros certeiros
no peito
eu vendo a mim sobre
meu leito
morte certa que não mais
rejeito

quarta-feira, junho 29, 2011

precipitação

prefiro lágrimas em vão
a sorriso precipitado
não porque goste de sofrer
mas a lágrima é mais fácil
de apagar
o gosto do sorriso é salgado
e chega a amargar
quando se é dado sem permissão
sorriso amarelo, este então
é o que não suporto esboçar
e de choros antecipados
vou vivendo, explodindo cada
instante com a chuva de olhar
é mais tranquilo pra mim
que ainda tenho muito pra chorar