sexta-feira, maio 25, 2012

poema molhado

o cinza cobre o céu, é chuva
os garis com capa e luva
a gripe cobre os pulmões
e nas cabeças das crianças, gorrinhos
as poças se transbordam em pinguinhos
sapato molha e é uma zorra só
alguém reza pra que ninguém morra?
bota um blues, abaixa a luz e busca o outro
pra terminar bem quentinho


segunda-feira, abril 02, 2012

mãos de filme

a lembrança da pele nunca me falha
faltam palavras que me decifrem
como aquela boca que desceu
como aqueles pés devoradores
o filme dos meus folículos está passando
vejam quão lindo: músculos, desenhos e
curvas de cinturas
firmes mãos que passam, rolando
seios, beijos, desejos
é a exibição da memória da carne
ao vivo e aos berros
pra que a sessão não acabe
apaguemos as luzes e permaneça
a loucura rodopiante da sala

terça-feira, março 27, 2012

tortura

quantos erros cabem num segundo
ah deus, os desgraçados são como eu
e é por isso que tenho pena das pessoas
da velhinha no ponto, do maluco sujo,
do menino cheira cola
são todos eu-problema e desses eu
tenho muita muita pena
apesar de saber que há maldade
há violência e descrença
há amores desilusões valem a pena
e cabem no bolso, sorte da miséria
números de mega-sena
só o que cabe nos erros são segundos
deus eterno e todo poderoso vagabundo

domingo, março 25, 2012

sidarta

gemidos e sabores
são seus desejos embaixo
da minha pele
ah, se fosse pra sempre
os rios dessa cidade
teriam seu nome
seriam testemunhas
da tentação quente da gente
delicioso menino batuque
me acelera o corpo todo
vem todo dia
vem selando a vida
vem só fotografia
aquece e mostra o que
só você podia
me faz querer ser sua
tatuagem, mulher e orgia
fica mais dentro de mim
fica e entra porque
já é claro demais o dia


semanal

domingo todo mundo tem angústia
é dia de chorar baixinho
vendo TV de noite
ou vomitar na cara da desilusão
melhor dia para suicídio
quando termina a alegria e
começa o medo de começar

se todo dia fosse domingo
a maldade teria asas e
pousaria sobre nossa s cabeças
latejantes da ressaca
mas domingo é só hoje
no expediente, toda dor morre

sexta-feira, março 02, 2012

escapou

fugindo de você
traço passos em mim
lanço no porto mais longe
as moedas do poço sem desejo

corro sem você
desesperadamente feliz
esqueço que tinha boas bolhas
bobas alegrias no estômago

vejo esboço de flores
na velocidade da luz negra
que fode meus olhos com
tanta rapidez de iguais cores

entregues em lenços
seus pequenos lamentos
me afastaram correndo
não procuro voltar

sair é meu sossego

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

a amante

amor decadente
paixão errante
dele e da cidade
castigada
irritante
preferia nada
a ter um monte
sentar à estrada
dormir mirando
horizonte
nos braços
quentes e ríspidos
relaxar seus
sonhos, futuros
distantes
oh cidade
na cama teu espaço
é o de amante

terça-feira, janeiro 17, 2012

despertador

quando ela pega
pode ser noite, dia
com dor nas costas
quentes querendo
água fria
fechando os olhos
caindo como criança
em truques de magia
confunde, ludibria
te faz perder o sono
ao mesmo tempo que
te canta notas tardias
não se negue: ela bate
na ponta do lápis e grita
"abre, é poesia"

domingo, dezembro 11, 2011

overdose

lá em casa é um lugar
com cheiro de sorriso
e textura de pessoa
dendê e atenção nas histórias
respeito aos mais velhos
guitarra baiana, molequeira
balanço sincero com ritmo
de coração acelerado
lágrima de nostalgia da mortalha
nota na voz malemolente e quente
lá em casa é gente
reconhecida pela voz
pela paixão e zelo
estado grande de solidão
mas a gente se encontra
e pra cada santo faz apelo
que não nos tire nunca ardência
nem pimenta nem malemolência

terça-feira, dezembro 06, 2011

jogatina

desde 1993
te quero
tínhamos 15
hoje 33
no nosso jogo
nosso preço
peças de xadrez
te ganhei
amei
até dias mais tardes
ter seu não 
vencendo, sendo
meu disparate
cheque mate
perdemos aos 23
de qualquer outro tempo

segunda-feira, dezembro 05, 2011

tríade

eu amo vocês
uma declaração
a nós três
registrada na
cartografia do
meu coração
para a comunhão
total do nosso
bem, que
assim sejam
meus os
sentimentos
que tens
eu, tus, vocês
divididos e
unidos num
só coração
nós, os três

quinta-feira, dezembro 01, 2011

venci?

de tanto pensar ganhei
ganhei uma dor de cabeça nos olhos
um monte de fumaça saindo
pálpebras embaçadas e inquietude
eu prefiro vidas complicadas
coisa de espiritismo regredindo
dentro é tanta confusão
que nem a profusão de pessoas
incomoda tanto: elas não me veem
eu não as vejo e tá tudo combinado
só não tá certo o primeiro parágrafo
nunca ganhei nada, nunca arrisquei nada
levei boas palmadas da vida
calos, dores e feridas foi tudo o que arranjei
confesso: o problema é todo eu

domingo, novembro 20, 2011

finado

é feriado aqui perto
sem sofrer e sem sofá
a vida passa feito
relógio cuco des-pertador
dentro daqui é furado
a água sai pelo buraco
dormir uma esperança
que o pescoço descanse, decreto!
supermercado de emoções
abra amanhã porque é feriado
precisaremos decerto
de feijões e corações

domingo, novembro 13, 2011

ruído

igual ao ano passado
quando o coração fervia
a sua espera
tudo o que sentia
tirava o fôlego
igual a cantar Etta James
subir a ladeira
te querer
no final desse ano
vai ser final da solidão
ou da espera
ou seu fim
do disco que acaba
com ruído de risco
igual seu nome
na minha poesia

quinta-feira, novembro 03, 2011

podreira

calo enquanto meus calos
falam uma dor aguda
sangue saído da verruga
são os meus podres

falo pra tirar minha culpa
esfoliando com água a pele falida
limpando a crosta esfregando
espalhando folículo de nojura

no ralo peles, lodos,calos
a superfície estranha a mim
é parte da poeira suja
de boca podre, de carne dura

segunda-feira, outubro 31, 2011

tradução

observar
outros se rasgarem
seu deus dormir
boca no beijo
assistir o ônibus
passear
mão subir
fila andar
fumaça e nariz
acompanhar
dedos de ogan
pés a marcar
alisar
flores que se
oferecem
ofício de sofredor
de parar o tempo
sagrado
numa folha


sexta-feira, outubro 28, 2011

non stop

caminhos para o mundo
são curtinhos
audaciosos e atrevidos
tem bastante solidão
alucinações neles
soltos na buraqueira
da vida formosa
mostrando o sol de Olinda e
os relógios atrasados do Fórum
a certidão de chegar
o asfalto da felicidade
tá feito!
rindo feito besta
na cidade sem eira
Beira-Rio
Ribeira
apaga a solidão e 
escreve novamente na areia
IMENSIDÃO

quarta-feira, outubro 26, 2011

profecia

enquanto aqui o mundo gira
me pergunto o que ele faz
parado procurando o tempo
com fotografias e aviões fúteis
tão mais interessante as músicas
que canto de noite na sala vazia
dele bem mais que as
notícias da TV muda e dos sites
colombianos ridículos
vem tomar café aqui em casa!
tem umas revistas rasgadas e
um tapete pro nosso futuro
cachorro
tem mel e queijo
no meio da noite, um beijo
seu mundo vai acabar
corre, vem pro meu
os blogueiros não mentem
aqui no quarto tem incenso
e a gente pode andar de metrô
em Recife nos fins de semana
ao menos que seja melhor
ter um sofá de couro e comer
duas horas antes do mundo
as ambulâncias ainda gritam
meu peito te chama baixinho
desliga o som e deixa música
sem o final do te amo

sexta-feira, outubro 14, 2011

do muito em mim

ela me chama todo dia
como chegava na janela
dizendo que era hora de
parar a brincadeira
chorosa, eu quero ficar
mais um pouco, só pra
terminar o baleô, o onoum

as mãos no queixo cansado
a voz tão linda diferente da minha
que me chama agora com mais
apelo, carinho, zelo: Sobe menina! Já chega, volta logo dessa brincadeira.

ela nem sabe porque todo dia me
aperta o peito e dá vontade de
chorar embaixo do chuveiro
de levá-la comigo pra proteger
ela sabe tudo só não sabe que
muito do que a gente queria era
guardá-la numa caixinha de
enfeitar noites e tornar tudo
calmo, forte, rosa e mãe