terça-feira, janeiro 17, 2012

despertador

quando ela pega
pode ser noite, dia
com dor nas costas
quentes querendo
água fria
fechando os olhos
caindo como criança
em truques de magia
confunde, ludibria
te faz perder o sono
ao mesmo tempo que
te canta notas tardias
não se negue: ela bate
na ponta do lápis e grita
"abre, é poesia"

domingo, dezembro 11, 2011

overdose

lá em casa é um lugar
com cheiro de sorriso
e textura de pessoa
dendê e atenção nas histórias
respeito aos mais velhos
guitarra baiana, molequeira
balanço sincero com ritmo
de coração acelerado
lágrima de nostalgia da mortalha
nota na voz malemolente e quente
lá em casa é gente
reconhecida pela voz
pela paixão e zelo
estado grande de solidão
mas a gente se encontra
e pra cada santo faz apelo
que não nos tire nunca ardência
nem pimenta nem malemolência

terça-feira, dezembro 06, 2011

jogatina

desde 1993
te quero
tínhamos 15
hoje 33
no nosso jogo
nosso preço
peças de xadrez
te ganhei
amei
até dias mais tardes
ter seu não 
vencendo, sendo
meu disparate
cheque mate
perdemos aos 23
de qualquer outro tempo

segunda-feira, dezembro 05, 2011

tríade

eu amo vocês
uma declaração
a nós três
registrada na
cartografia do
meu coração
para a comunhão
total do nosso
bem, que
assim sejam
meus os
sentimentos
que tens
eu, tus, vocês
divididos e
unidos num
só coração
nós, os três

quinta-feira, dezembro 01, 2011

venci?

de tanto pensar ganhei
ganhei uma dor de cabeça nos olhos
um monte de fumaça saindo
pálpebras embaçadas e inquietude
eu prefiro vidas complicadas
coisa de espiritismo regredindo
dentro é tanta confusão
que nem a profusão de pessoas
incomoda tanto: elas não me veem
eu não as vejo e tá tudo combinado
só não tá certo o primeiro parágrafo
nunca ganhei nada, nunca arrisquei nada
levei boas palmadas da vida
calos, dores e feridas foi tudo o que arranjei
confesso: o problema é todo eu

domingo, novembro 20, 2011

finado

é feriado aqui perto
sem sofrer e sem sofá
a vida passa feito
relógio cuco des-pertador
dentro daqui é furado
a água sai pelo buraco
dormir uma esperança
que o pescoço descanse, decreto!
supermercado de emoções
abra amanhã porque é feriado
precisaremos decerto
de feijões e corações

domingo, novembro 13, 2011

ruído

igual ao ano passado
quando o coração fervia
a sua espera
tudo o que sentia
tirava o fôlego
igual a cantar Etta James
subir a ladeira
te querer
no final desse ano
vai ser final da solidão
ou da espera
ou seu fim
do disco que acaba
com ruído de risco
igual seu nome
na minha poesia

quinta-feira, novembro 03, 2011

podreira

calo enquanto meus calos
falam uma dor aguda
sangue saído da verruga
são os meus podres

falo pra tirar minha culpa
esfoliando com água a pele falida
limpando a crosta esfregando
espalhando folículo de nojura

no ralo peles, lodos,calos
a superfície estranha a mim
é parte da poeira suja
de boca podre, de carne dura

segunda-feira, outubro 31, 2011

tradução

observar
outros se rasgarem
seu deus dormir
boca no beijo
assistir o ônibus
passear
mão subir
fila andar
fumaça e nariz
acompanhar
dedos de ogan
pés a marcar
alisar
flores que se
oferecem
ofício de sofredor
de parar o tempo
sagrado
numa folha


sexta-feira, outubro 28, 2011

non stop

caminhos para o mundo
são curtinhos
audaciosos e atrevidos
tem bastante solidão
alucinações neles
soltos na buraqueira
da vida formosa
mostrando o sol de Olinda e
os relógios atrasados do Fórum
a certidão de chegar
o asfalto da felicidade
tá feito!
rindo feito besta
na cidade sem eira
Beira-Rio
Ribeira
apaga a solidão e 
escreve novamente na areia
IMENSIDÃO

quarta-feira, outubro 26, 2011

profecia

enquanto aqui o mundo gira
me pergunto o que ele faz
parado procurando o tempo
com fotografias e aviões fúteis
tão mais interessante as músicas
que canto de noite na sala vazia
dele bem mais que as
notícias da TV muda e dos sites
colombianos ridículos
vem tomar café aqui em casa!
tem umas revistas rasgadas e
um tapete pro nosso futuro
cachorro
tem mel e queijo
no meio da noite, um beijo
seu mundo vai acabar
corre, vem pro meu
os blogueiros não mentem
aqui no quarto tem incenso
e a gente pode andar de metrô
em Recife nos fins de semana
ao menos que seja melhor
ter um sofá de couro e comer
duas horas antes do mundo
as ambulâncias ainda gritam
meu peito te chama baixinho
desliga o som e deixa música
sem o final do te amo

sexta-feira, outubro 14, 2011

do muito em mim

ela me chama todo dia
como chegava na janela
dizendo que era hora de
parar a brincadeira
chorosa, eu quero ficar
mais um pouco, só pra
terminar o baleô, o onoum

as mãos no queixo cansado
a voz tão linda diferente da minha
que me chama agora com mais
apelo, carinho, zelo: Sobe menina! Já chega, volta logo dessa brincadeira.

ela nem sabe porque todo dia me
aperta o peito e dá vontade de
chorar embaixo do chuveiro
de levá-la comigo pra proteger
ela sabe tudo só não sabe que
muito do que a gente queria era
guardá-la numa caixinha de
enfeitar noites e tornar tudo
calmo, forte, rosa e mãe

quinta-feira, outubro 13, 2011

a doçura da felicidade

cócegas na boca
são brigadeiros
encontrando a saliva
fazendo rir o corpo
inteiro
atingem o cérebro
como morteiro
o efeito na barriga
é feito no prazer
no sorriso com dente
preto
cheio de graça e doce
ave maria como é bom!
alegria nas paredes
brigadeiros no sorriso

segunda-feira, outubro 10, 2011

um poema em cada árvore




Um poema em cada árvore (13ª edição) é um projeto do Instituto Psia que reúne poetas de diversos estados no Brasil nas árvores de Governador Valadares (MG). Para saber mais, veja.

terça-feira, outubro 04, 2011

mais do mesmo

muito revolucionário exatamente quando
o pensamento vem no transporte público
quando a vontade de mudar tudo transborda
produzindo um monte de tópicos para
"o que fazer amanhã de manhã"

ousado demais o comportamento de olhar
por entre as frestas dos braços brancos
mirando as pernas grossas de alguém
que usa óculos e segura um guarda-chuva
desviar os sinais do corpo é mais seguro

surpreendente encontrar um confeito
no bolso de trás da calça jeans lavado
adoçando o longo caminho de casa
faz em vinte minutos quando não tem
trânsito na avenida principal da escola

adoçando, surpreendendo, revolucionando
as noites repetidas com banhos quentes
pés descalços, chocolates e músicas de tv

quinta-feira, setembro 29, 2011

poesia após a morte

quem sempre te salvou foi a poesia
nas horas mais doces ou em que a
dor no mais profundo vinha e doía
era lá que as palavras ganhavam
função de aliviar fortes sinapses
acalantar a ferida como merthiolate
ardendo no início, sarando no fim

te pegando pela mão e te levando
a passeio na praia de jacumã igual
quando você cantava pra esquecer
fazia alto tão alto que alegrava a si
ela borra seu batom com lágrima
regenera a pele crequenta de sofrer
foi e será a poesia sua redenção:
senta então pensa e termina a oração

segunda-feira, setembro 26, 2011

imagem do dia

ela quer ver aquelas ladeiras
com paredes de grafite bonito
e as ondas do mar balançando
como os cabelos dele por sobre
seu peito nu e rígido de amores
ela quer ter o cheiro de acará
dançar, pular até doer a panturrilha
chamar de seu o homem das finas
linhas e mãos pequenas roliças
sentir o sol que sorri em cada
guri da esquina da Pituba à Barra
andar nos museus sem deixar de ver
os pretos que miram o tempo parar
sentir seu chão, seu céu, seu pão
se achar com tudo seu que ficou

segunda-feira, setembro 19, 2011

sonhos de uma noite de amanhã

tinha sede nos músculos
ardência nas peles duras
antes de você era um
pequeno e gostoso suspiro
nas noites em Minas Gerais
tinha umas loucuras matinais
pular muro, voar e dar
aí depois veio você
e deu uma vontade de receber
de ter e ficar só isso por um tempo
nunca mais você foi de mim
aqui toda noite fico eu sem
naqueles longos beijos nem

sábado, setembro 17, 2011

morena de yemanjá

falar mansinho na diplomacia
rezar baixinho e dar um abraço
com um tapinha nas costas
sorrir demorado e sempre dizer obrigado
tomar café e chupar picolé de Seu Luís
furar onda e amar o mar com suas algas
verdes e vivas iguais as contas de mamãe Zeca
aprendi com ela: mansa, elegante, singela
D. Francisca, a mulher primeira dentre as 7
a morena mais chic, sincera, humilde e bela
das margens azuis e salgadas do Rio Vermelho