domingo, outubro 24, 2010

apertamento

retratos parados
pinga a pia
pinga lá fora, noite fria

paredes pálidas
e portas de natureza torta
jardim sem maçã ou erva morta

no espelho o banheiro
a meia luz da varanda
toma banho o chuveiro

sozinha a cozinha
a sombra passeia
dá pra ver a vizinha

apartamento tem querer
em pé tomando café
quer sua presença, seu cafuné

domingo, outubro 03, 2010

mal dormir

hoje o sonho me acordou você
e me veio a festa dos matos
quando o carro passa
trouxe a marca verde do sol
permanente na vista
e as montanhas redondas
iluminadas as retinas
roteiro feliz nos beijos espalhados
sonhos com músicas pra ninar você

quarta-feira, setembro 01, 2010

pra vir

chega
de te ver
de te longe
se esconder

deixa
de querer
de falar
me enxergar

esquece
e me some
me desfaz
desaparece

chega
chega logo
chega liga
chega perto
dá um chêro

domingo, agosto 22, 2010

lesera

um brinde as babaquices

idiotices e besteiras

ah nós! Contemplativos

parabéns aos estúpidos

as mesmices inúteis

as promessas vazias

um salve para os medíocres

e sua estupidez cega

que fundamentaliza o viver

aleluia, oh céus

e livre dessa inglória os meus

a alguns o infame poder

da insignificante criatividade

sexta-feira, julho 30, 2010

para Elias José

escrevi cem vezes o bilhete de amor
escrevi mil vezes o bilhete de amor
escrevi trocentas vezes o bilhete de amor

amor, você ainda lê bilhetes?
amor, e o som dos clarinetes?

escrevi mais uma vez o bilhete de amor
e nem virou poesia
dei-o ao franco-atirador

quinta-feira, julho 22, 2010

quinta-feira, julho 08, 2010

janela

apertado é o coração de quem ama
novidade não há para os poetas
pistas tristes, faróis vermelhos
cansamos de ter

cansado é o coração de quem ama
navalha para poucos
chuvas frias, passos silenciosos
amamos? vê...

malvado é o tempo pra quem tem
embriaguez nos sonhos todos
prédios acesos, redes vazias
distanciamos, crê?


sexta-feira, junho 18, 2010

homeopatia

poesia cura
macumba de curandeiro
dor de partida
ferida de coração
partideiro
boêmio, faceiro
cura e mata
devagar na valha
feita pra cegar
alguma pena
que venha ou vai
mandinga de olhar
poesia há de passar
nem que seja pra
jogar na cova
terra, lágrima e dor
última pá

quinta-feira, junho 10, 2010

depois pois

dez segundos depois do amor
está a morte
sim, podíamos morrer
depois do prazer
nada mais sentido faz
pra que homens trabalhando
meninos na escola
água empoçando
a morte prolonga
o sentir vazio profundo
depois dos dez segundos

terça-feira, junho 08, 2010

seu jogo

quem sou eu
no seu jogo
do bicho?
- ninguém
a mulher da banca
pobre garça elegante
esquizofrênico perambulante
leão que marca com a língua
homem preto velho
na janela
pomba branca triste
não sou eu
nesse seu jogo

(me perguntando pra você quem sou eu)

sábado, junho 05, 2010

meu mar

mulher
na frente mar
nada demais
como o vermelho do batom
na boca dela
boca da tarde
braços do mar
mulher má
e seus vermelhos escondidos
sangra boca e mar
batom bom gastar
transar a mais
ânsia de ver
mulher

segunda-feira, maio 03, 2010

cheio de tudo

tudo cheio
ônibus e saco cheio
na cidade
boca cheia
canta e enche
o pulmão e a barriga
ponto cheio
bem final
fim de linha final
paciência enche
rua enche
bueiro enche
email enche
pro nosso final
boca na linha: fatal

quarta-feira, abril 28, 2010

te vi no tchau

já vi o adeus
sério, eu vi
era um domingo
de manhã
de novo
já indo e dando
repetidos tchaus
repentinos maus
vi os olhos rompendo
a barreira do saguão azul
era um domingo
de novo
um novo
já dizia minha voz
eu sabia que ias
desde que chegou
e de manhã
rompeu minha vida
como todo dia
em que me cegou

segunda-feira, abril 26, 2010

deusa ou serei eu

rio de abelhas rainhas em sua cama
rainha é sua cama
de onde emana leite e mel
de manhã café e mel
gostos tão comuns o meu e o seu
do suor que selou o corpo
bebido e oferecido aos deuses do amor
é bom celebrar no ápice ir eternizando
horas num século
derramando o mel e o céu em nós

toda manha tem o mesmo
toque de cetim, de pano quente
cores de quentin sobre os corpos
um guerra onde a paz era sua
já perdi e nem tem graça
e roubei seu troféu comigo
bebi a bebida da sua vitória
dando adeus aos nossos deuses deitados

sábado, abril 17, 2010

quando não é inverno

a chuva caiu
e era montanha
quente
do umbigo pra baixo
lento de ver
na subida do carro
pleno vento
na orelha
e sabor de
menta nos dentes
como num passo
de tango ela passou
deixando úmido
tudo por fora
nem frio ficou
mas o abraço chegou
e o desejo no papel
eternizou aquela subida

domingo, abril 04, 2010

solos

comigo
solos de sax
não combinam
bate violento e
lentamente dói
é como mulher
que grita
a todo toque
marcando os tons
dando ritmo
são melhores
os de guitarra
baiana
muito menos
velozes, sutis
tendo o homem
a dedilhar, lamber
cada fio e traço
fino trato

é tão bom que dói