
Era noite e a rádio comunitária cantava roucamente: "nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de são joão..." Ele caminhava vagarosamente pelas ruas da cidade sem olhar quem vinha pela frente - pés e calçada, calçada e pés, pés e calçada, calça
- Desculpa senhora.
- Olhe por onde anda, insolente!
Nunca ninguém o havia chamado de insolente, não que ele lembrasse... e seguiu sem olhar pra frente e agora sem saber onde ia. Um barulho de buzina o fez olhar para o lado e foi quando avistou um bar; sentiu vontade de beber, mas não tinha um puto no bolso. Voltou a caminhar. Passando pela praça principal tornou a ouvir a droga da rádio comunitária: "nunca mais quero seu beijo, mas meu último desejo...
- Ahhhhhhhh!!!!!
Ficou tudo escuro. Ouviu gritos, freios, risadas, tombos; quis voltar, não conseguiu. Esfregava os olhos, mas a visão só voltava com o brilho dos faróis dos carros. Também não seguiu a intuição, ao contrário: achou com a canela um banco na praça e sentou-se para esperar a normalidade.
[continua]
















